
O poeta português Ricardo Reis nasceu em 1887, na cidade do Porto, e estudou em um colégio de jesuítas. Formou-se médico e defendia a monarquia. Quando a República se instalou em Portugal, veio para o Brasil, exilado. De formação helênica e neoclássica, escreveu odes inspiradas em Horácio (...) Reis tinha na ausência de desejos e no autodomínio dois pilares de sua sabedoria. O rigor de sua postura é manifesta em poemas de enunciação severa e métrica precisa.
Assim é Ricardo Reis, um poeta que não existiu. Não foi ele nada mais que fruto da imaginação, genialidade e inquietude de Fernando Pessoa, poeta português que, não contente em ser apenas um, se fez mil (e descreveu cada um deles, como no parágrafo acima, onde fala quem é Ricardo Reis). Mil diferentes partes, chamadas eruditamente de heterônimos, diferentes entre si, e diferentes do Pessoa "ele mesmo".
De Maria Helena a 1 de Setembro de 2005 às 08:28
NADA FICA
Ricardo Reis
Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.
Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.
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