Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2005
Senti a bala assassina ferindo a minha própria carne...
A Ilha do Pontal do Pina, que já foi descrita em verso por Didier Filho, há mais de um século sendo " faceira como uma menina, irrequieta e farandulosa " é hoje, segundo estatísticas oficiais, uma região em que são assassinados 69 por 100.000 habitantes, número alarmante, com o qual convivemos nós, os moradores e os milhares de pernambucanos que por lá transitam todos os dias. Quis a inextricável, incompreensível teia do destino, num fim de tarde de sábado, que um facínora, assassino frio e indiferente, como milhares que pululam pela nossa cidade e pelo nosso país, tirasse a vida do eminente médico psicanalista dr. Antonio Carlos Escobar.
Eu o conheci há muitos anos, quando pessoa de minhas relações precisou de seus cuidados médicos e pude verificar seu elevado senso profissional e sua destacada eficiência técnica. Ao longo do tempo pude observar seu desempenho crescente, sua disposição em promover o crescimento de sua profissão e das instituições que criou e estimulou, sempre com o sentido maior de prestar relevantes serviços ao ser humano, a ajudar seus semelhantes. Pude também testemunhar o seu interesse em discutir, de maneira elevada e lúcida os problemas do seu tempo e do seu povo.
Mas, nessa trágica e nebulosa quadra por que passa nosso país, há uma profunda inversão de valores, fruto de uma desordem generalizada patrocinada pelo governo, a partir do péssimo exemplo de suas figuras mais destacadas, como o próprio presidente da República . Há uma condescendência inexplicável, absurda, gritante e também progressiva com os agentes do mal que semeiam implacavelmente suas atrocidades no fértil campo dos justos. Essa sementeira malévola é regada com profusão e desvelo pela inoperância gigantesca e pela indiferença incompreensível dos governos, que passaram de protetores constitucionais do cidadão-contribuinte a exercer, duplamente, o papel de seu algoz.
De um lado devorando sofregamente o fruto do seu trabalho através de impostos absurdos, de outro despejando na vala comum da corrupção e da incompetência os recursos tão essenciais para um país com tantas carências...
Nós convivemos hoje com uma polícia desarticulada, ineficiente, na maioria das vezes ausente, associada a uma Justiça precária , tolerante, paquidérmica e obsoleta. Isso sob o manto diáfano da fantasia de uma sociedade alienada, que só se preocupa, tardia e ineficazmente, quando ferida nos seus mais próximos membros. Mas hoje li comentário de um amigo do nobre falecido: não podemos continuar fazendo passeatas de branco pela paz. Eu digo que temos que fazer passeatas de vermelho pelo sangue derramado e de preto de luto pela ineficiência institucional. Considero que o último ato do Dr Escobar foi de altruísmo elevado, compatível com sua trajetória de vida: procurava ajudar um semelhante em dificuldade.
Senti a bala assassina ferindo a minha própria carne. Prestemos o nosso tributo ao eminente e saudoso psicanalista: que a semente de seu exemplo profissional e de vida germine, poderosa, como humanística e invencível bandeira pela justiça e pela vida.
"Tributo ao Dr. Escobar", por Dr. Eduardo Miranda, Médico cancerologista - Diretor da Clínica, UNIONCO e da Organização Social CORE. Publicado no Diário de Pernambuco, em 21 de dezembro de 2005. Imagem: antenaparanoica
Nota: Um caso emblemático. Escobar, nosso amigo, trabalhava atualmente na recuperação de jovens infratores. Foi morto por um menor, ao tentar salvar uma moça dos assaltantes. Mais um dos assaltos diários na cidade do Recife, considerada uma das mais violentas do mundo.
Publicado por Blog da Santa às 13:06 |
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Pois assim estamos. Comemoramos o nascimento um dia por ano e a morte nos outros 364.
Ninguém engane-se que é o caso isolado de Recife. As grandes metrópoles brasileiras estão gemendo, velando seus heróis do desatino da ganância e da intolerância, enquanto o estado toma medidas paliativas que não estancam a grande hemorragia moral que se abate sobre nosso país.
De
Clê a 26 de Dezembro de 2005 às 16:01
Que triste saber que mesmo fazendo parte de tamanha estatística nenhuma ação governamental é feita para a segurança dos que vivem aqui.
De Anónimo a 26 de Dezembro de 2005 às 16:06
Mais um vítima.
Santa, sua atitude enobrece cada vez mais a pessoa que conhecemos. Dar espaço em seu blog como forma de protesto a toda esta violência.Sentimos muito a perda de Dr Escobar, que nesta hora, representa os milhares de cidadãos, que pagam seus impostos, que dedicam a vida profissional ao bem coletivo, e que perdem suas vidas pelo total abandono do Estado.
De Anónimo a 26 de Dezembro de 2005 às 16:11
Que triste País vivemos. Que tristes tempos!! O que será das próximas gerações??
De
Mestre a 26 de Dezembro de 2005 às 16:16
O que é publicado não corresponde nem a 50% dos crimes cometidos. Vale o post como forma de alerta a sociedade em desamparo.
De Marquinho a 26 de Dezembro de 2005 às 16:48
Já que a Constituição diz que o Estado é o responsável pela segurança do cidadão, por que não responsabilizá-lo judicialmente já que não cumpre a constituição.
www.observatoriodasartes.com.br
Santa, imaginamos o que está sentindo. É muito triste perder um amigo ainda mais de forma violenta.Nosso abraço.
De Anónimo a 26 de Dezembro de 2005 às 17:08
Cara Santa :
Em São Paulo perdi vários amigos assim bestamente, por um carro velho, R$ 50 ou simplesmente por estarem no lugar certo, exercendo seus direitos na frente de pessoas erradas, não se tira o mérito do texto é muito bom e sensivel, só não podemos romar como exemplo de justiça China e India, a primeira é mito não há justiça alguma e os números da violência são controlados pela midia estatal que publica o que quer e assassina quem quer também e a India o que dizer?, num país onde reclamar da corrupção dá direito a hospicio e segregação social não pode haver justiça alguma, agora que temos que parar com estas passeatas ridiculas pela paz e o bandido tem que ter medo da mão do Estado e da Justiça isto concordo em gênero, número e grau, vai-se um ser humano que produzia divisas e capital intelectual para o país e fica um outro que representa um fardo, um custo que mesmo depois de preso vai nos pesar mais ainda nos bolsos.
Bjs e condolências
Marcos
www.gotasdefel.blig.ig.com.br
De
Saramar a 26 de Dezembro de 2005 às 17:13
Santa, meus sentimentos. Não só a você, mas a todos nós que somos vítimas diárias de atos desse tipo.
Concordo com você. Passeatas com camisetas brancas e pombinhas da paz não sensibilizam nossas "autoridades", não fazem mais sentido diante da complacência criminosa com a violência.
Beijos
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